|
Anonymous enviou "ALDEIA DE ITAGUAÍ
Maria Graham relata como era o município em 1823
Maria Graham é autora de um dos diários mais famosos sobre o Brasil, escrito nas primeiras décadas do século XIX.
Publicado pela primeira vez em inglês, com o título de “Journal of a voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823”, e traduzido por Américo Jacobina Lacombe, em 1956, sob o título “Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos aos de 1821, 1822 e 1823”, o livro inclui um desenho da Vila de São Francisco Xavier de Itaguaí, cujo original encontra-se na Coleção do Museu Britânico, em Londres, na Inglaterra.
A professora inglesa, filha do vice-almirante George Dundas, comissário do Almirantado Britânico, fez uma descrição minuciosa da sua passagem pela região oeste do atual município do Rio de Janeiro, vindo hospedar-se no então Palácio Real de Santa Cruz, de onde partiu, na manhã do dia 23 de agosto de 1823 (sábado), para a aldeia indígena de São Francisco Xavier de Itaguaí, que tinha curiosidade de conhecer.
Segundo escreve o professor Lacombe, “reúne ela um feliz conjunto das qualidades tradicionais dos britânicos: objetividade, precisão, clareza e – acima de tudo – simpatia para com o povo observado.”
“Depois do café cavalgamos pela estrada calçada, que cruza a planície de Santa Cruz, até a aldeia indígena de São Francisco Xavier de Itaguaí, geralmente chamada de Taguaí, fundada pelos jesuítas não muito antes da expulsão.”
Os jesuítas chegaram à região por volta da segunda metade do século XVI (1589) e foram expulsos por ordem do marquês do Pombal em 1759. As primeiras informações sobre a fundação da aldeia datam de 1615. Muito tempo antes da expulsão, ao contrário do que escreveu Maria Graham.
“A situação da aldeia e da igreja é muito bela: no cume de um morro, domina uma rica planície, banhada por um rio navegável e cercada de montanhas.” (veja desenho em anexo)
A viajante inglesa conversa com uma das mulheres da aldeia de Itaguaí, obtendo curiosas informações que as possibilitaria fazer uma comparação dos índios brasileiros com os índios chilenos que, segundo ela, “raramente, ou nunca, voltam às florestas uma vez organizadas suas aldeias...”
“Perguntei a uma das mulheres em cuja cabana me sentei se sabia de onde tinha vindo sua tribo. Ela disse que não, que ela havia sido trazida, quando simples criança, de uma grande distância de Taguaí, pelos padres da Companhia (Jesuítas), que seu marido morrera quando ela era moça; e que ela e suas filhas sempre haviam morado ali; mas que seus filhos e netos, quando os padres da Companhia se foram, haviam voltado para seu país, com o que ela queria dizer que haviam reassumido a vida selvagem.”
Segundo Maria Graham, o fato de alguns índios, principalmente os homens mais jovens, fugirem da aldeia e voltarem para a mata, não seria surpresa alguma, uma vez que muitos deles acabavam vivendo na condição de escravidão.
“Além disso, - continua a escritora inglesa – há escravos bastantes, e o negro é mais resistente que o índio, seu trabalho é mais rendoso; portanto, um índio desejoso de trabalhar nem sempre encontra senhor. O produto de seu pequeno terreno, ou de sua pescaria, é raramente suficiente para a família, e sem a ajuda do padre, cuja principal proteção consistia em obter-lhe ocupação permanente, o selvagem semi-domesticado desanima, e volta de novo para a liberdade de sua floresta, para sua caça e para sua pesca descontrolada.”
A autora de “Diário de uma viagem ao Brasil”, não deixa de observar os aspectos higiênicos e sociais da Aldeia de Itaguaí.
“As cabanas indígenas de Taguaí são muito pobres, escassamente suficientes, nas paredes e teto, para defender do clima, e dotadas de pequenas redes para dormir e utensílios de cozinha. Contudo por toda parte éramos convidados a entrar e sentar. Todos os chãos estavam varridos com limpeza e havia geralmente um cepo de madeira, ou um banco rude, para assento do estrangeiro, enquanto os próprios habitantes se acocoravam no chão.”
O famoso engenho de Itaguaí também não deixa de ser mencionado pela escritora:
“Ao pé do morro de Taguaí há um belo engenho vendido por D. João VI(...): os cilindros são movidos por uma roda d’água horizontal de cerca de vinte e dois pés de diâmetro, acionada pelo pequeno rio Taguaí. A quantidade de açúcar fabricado em um dado tempo é pouco maior do que a produzida pelo engenho a vapor da Mata Paciência, sendo igual o número de escravos empregados.”
“Após haver admirado bastante a limpeza do engenho e a beleza da situação, deixamos Taguaí para voltar a Santa Cruz e passamos novamente o rio Guandu, onde há uma guarda a cavalo junto à ponte. Exigem-se ali salvo-condutos dos viajantes ordinários, mas como tínhamos conosco um empregado de Santa Cruz, não fomos interrogados..”
O “Diário de uma viagem ao Brasil”, que teve uma edição mais recente publicada em 1990 em co-edição da Editora Itatiaia com a Editora da Universidade de São Paulo, é um livro que desperta muito interesse porque Maria Graham, além da sua esmerada educação, conhecedora profunda da literatura inglesa e estrangeira e da arte do desenho, foi convidada pela própria imperatriz D. Leopoldina para trabalhar como preceptora dos príncipes imperiais, em particular de D. Maria da Glória, com apenas cinco anos e que se tornaria a rainha D. Maria II, de Portugal. Além disso Maria Graham, como excelente observadora, viveu um bom período em companhia da sociedade brasileira na fase de transição da colônia para o império e início da consolidação do governo monárquico.
Sinvaldo do Nascimento Souza
Coordenador do Curso de Turismo
Faculdade Machado de Assis
Anexo: “Vila de S. Francisco Xavier de Itaguaí”. Desenho de Maria Graham. Coleção do Museu Britânico.
"
Publicado em 9/05/2004 (8:19)
|