Sinvaldo enviou "Relatos do botânico Auguste de Saint’Hilaire
Em 2005 ocorreu o “Ano do Brasil na França”. Foram muitas homenagens prestadas ao nosso país e aos brasileiros.
A programação foi intensa. Começou no dia 24 de junho e perdurou até o mês de setembro.
Foram realizados shows, mostras de artes plásticas e de artesanato, peças teatrais, espetáculos de dança e cinema, além de seminários, fóruns, workshops e rodadas de negócios, dentre outras atividades de cunho cultural e comercial.
2009 é o “Ano da França no Brasil”. Está na hora de retribuirmos todo o carinho, generosidade e dedicação dos franceses. É também o momento oportuno para o estreitamento das relações históricas e culturais entre os dois países.
Cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Manaus, estão se programando para receber manifestações culturais francesas, em agradecimento e homenagem pelo brilhantismo que foi o “Ano do Brasil na França”.
A Cidade de Itaguaí também tem motivos para fazer parte da programação nacional.
Pelos relatos do viajante e botânico francês Auguste François Cesar Provençal de Saint’ Hilaire, a antiga Vila de São Francisco Xavier de Itaguaí, tornou-se muito mais conhecida internacionalmente.
Saint’Hilaire, veio para o Brasil em 1816 com o objetivo de estudar a flora brasileira. Cientista de méritos notáveis, tendo inclusive pertencido à Academia de Ciências de Paris e lecionado como docente de Organografia Vegetal da Sorbonne, Saint’Hilaire deixou uma considerável obra sobre a flora brasileira, registrando também as condições de vida e os costumes brasileiros na primeira metade do século XIX. Não há dúvida de que a obra de Saint’Hilaire tem valor duradouro, e desperta o interesse não apenas do estudioso da botânica, mas também do antropólogo, do sociólogo, do geógrafo, do historiador, pela exatidão e minudência das suas observações e registros, que tanto contribuem para o estudo do Brasil dos fins da fase colonial.
A vinda de Saint’Hilaire para o Brasil foi patrocinada pelo Duque de Luxemburgo, embaixador extraordinário da França, com quem estudou botânica. Aqui ele percorreu as províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Cisplatina (Uruguai), além das missões do Paraguai.
Ao regressar à França, às vésperas da proclamação da Independência do Brasil, no mês de julho de 1822, Saint’Hilaire tinha reunido um herbário de cerca de 30 mil espécies, além de ter coletado informações estatísticas, elaborado diversos quadros sobre as províncias percorridas e produzido relatórios com resumos históricos, sociais e econômicos desde a chegada de Dom João até a abdicação de Dom Pedro I.
Com todo esse cabedal de informações, o simples percurso de Saint’Hilaire pelos caminhos e trilhas que cortavam o território da então Vila de São Francisco Xavier de Itaguaí, já seria mais do que suficiente para sensibilizar a Prefeitura e a Câmara Municipal a prestarem uma homenagem pelo transcurso dos 230 anos de nascimento do botânico, exatamente no “Ano da França no Brasil”.
Para quem deseja conhecer algo sobre a Região da Costa Verde no início do século XIX, vale a pena ler os relatos do botânico.
Na parte final do diário sobre a “Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo”, realizada em 1822, encontramos as anotações do famoso botânico sobre a sua passagem por Itaguaí, no dia 4 de maio, procedente de São João Marcos, numa época em que os cafezais começavam a se espalhar pelas redondezas, espraiando-se pelo litoral sul fluminense para, em seguida, galgar os pontos mais elevados de Itaguaí a partir da Raiz da Serra.
Ainda hoje, decorridos quase dois séculos, podemos avistar os frutos vermelhos da rubiácea, proporcionando o contraste cromático com a verdejante infinidade de tons que emolduram de forma panorâmica, as trilhas e caminhos de pedra das serras do Matoso, da Guarda e do Caçador. Interessante é que Saint’Hilaire palmilhou toda essa região, apenas três meses antes que o então Príncipe Regente Dom Pedro, mais tarde Imperador Dom Pedro I, cumprisse itinerário inverso, no famoso périplo da Independência, após pernoitar no então Palácio Real de Santa Cruz, hoje quartel do exército, vindo do Rio de Janeiro.
Devido aos problemas causados pelas chuvas intensas, Auguste de Saint’Hilaire foi obrigado a permanecer três dias na parte mais alta do contraforte montanhoso entre Itaguaí e Piraí, pernoitando na Venda do Toledo, próxima ao Rio Teixeira, onde passou pelo contratempo de se ver obrigado a usar de meios legais para recuperar um burro da tropa que o acompanhava. “Percorremos atualmente o grande vale em cuja extremidade fica situado o Rio de Janeiro. Não encontramos hoje a menor colina, senão em Santa Cruz, e segundo o que ouvi dizer, o caminho será daqui para diante sempre plano até o mar.”
O naturalista francês observa, já na região mais plana de Itaguaí, que o terreno é úmido e arenoso, constatando a existência de alguns fragmentos de conchas. “Atravessamos, sem estorvos, o Rio Teixeira.
Entretanto, sua passagem oferecia ainda perigos para os burros carregados de objetos delicados. Realmente construíram uma ponte sobre o próprio leito do rio. Mas quando chove, a água esparrama-se à direita e esquerda da ponte. Ali se formaram caldeirões profundos onde os animais podem facilmente cair molhando-se a carga.”
Saint’Hilaire refere-se à Itaguaí como uma “cidadezinha”, lembrando a origem como aldeia de índios formada pelos jesuítas quando ainda proprietários da Fazenda de Santa Cruz. “Acha-se situada numa colina a algumas centenas de passos do caminho onde se encontram ainda algumas famílias de índios. Alguns brancos construíram casas à beira da estrada. Ali estabeleceram vendas e lojas; colocou-se um pelourinho no meio dos arbustos que cobrem o terreno entre a estrada e a aldeia de Itaguaí; transformou-se em vila.”
Na Guarda ou Registro de Itaguaí, onde se encontrava a principal divisa com Santa Cruz e um posto de fiscalização, o botânico francês apresentou seu passaporte e recebeu os cumprimentos e gentilezas do comandante da guarda. “Um pouco além da guarda, atravessa-se por uma ponte, muito bonita, de madeira, o Itaguaí, pequeno rio. Aí começa a imensa planície de Santa Cruz,” – conclui Saint’Hilaire. Quem percorre as trilhas remanescentes da Serra da Calçada, ainda hoje, em pleno século XXI, e se depara com tropeiros, mateiros ou simples vendeiros das beiras de estrada, oferecendo queijos, pastéis e a pinga de barril acaba constatando que, para certas regiões de Itaguaí, da Costa Verde e do interior do Brasil, os relatos de Auguste de Saint’Hilaire, permanecem atuais.
O contato com esta realidade bucólica, e a possibilidade iminente de viabilizarmos projetos turísticos, ecológicos, educativos e culturais, com base na sustentabilidade, são desafios que os governos, empresários, instituições universitárias, organizações não-governamentais e a população itaguaiense como um todo, deveriam ousar e exercitar. Quem sabe começando por homenagear o famoso botânico, no Ano da França no Brasil?
Sinvaldo do Nascimento Souza
Professor de História da Cultura
Curso de Turismo
Faculdade Machado de Assis
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Publicado em 10/04/2009 (21:00)